Por sucesso no campo, Baylor tratou casos de estupro de forma irresponsável

Em um momento em que o Brasil está chocado com o caso da garota de 16 anos que foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro, acho que é importante parar para pensar como o assunto é tratado em vários aspectos da sociedade. E como os esportes são o carro-chefe deste blog, vou puxar para este lado, mas especificamente para o que aconteceu em uma universidade norte-americana.

Baylor é uma das principais equipes do futebol americano universitário nos últimos anos, ganhando dois títulos da conferência Big XII, terminando entre os 15 melhores do ranking da agência Associated Press e tendo um vencedor do Heisman Trophy em Robert Griffin III, em 2011.

O problema é que o sucesso da equipe do técnico Art Briles acabou escondendo algo bem preocupante que acontecia no campus de Waco, uma série de casos de violência doméstica e abuso sexual que não foram tratados de forma correta pelo departamento esportivo e pela universidade.

O primeiro nome citado é o do linebacker Tevin Elliott, que começou a sua história negra em 2009. Segundo a própria faculdade, Elliott estuprou seis alunas diferentes do campus, incluindo uma atleta que foi violentada duas vezes na mesma noite, não recebeu ajuda da universidade e acabou perdendo a bolsa escolar esportiva depois de suas notas caírem. Em janeiro de 2012, o ex-jogador foi condenado a passar 20 anos na prisão por abusar sexualmente da esportista.

Shawn Oakman foi expulso de Penn State em 2012 após agredir uma funcionária de um estabelecimento enquanto tentava roubar um sanduíche. A solução foi se transferir para Baylor. E mesmo antes de entrar em campo, o defensor agrediu sua ex-namorada, que chegou a fazer um boletim de ocorrência, mas não foi à justiça. E em 2016, após terminar seu curso, Oakman foi preso por violentar uma estudante que saiu de um bar com ele.

Os problemas de Sam Ukwuachu começam em Boise State, de onde ele foi dispensado por causa de uma briga com sua namorada e companheiros de quarto em 2012. No ano seguinte, o defensor vai para Baylor e logo é acusado de estuprar uma estudante, mas a universidade decide não continuar investigando o acontecimento, mesmo com a Polícia de Waco afirmando que era o suficiente para que ele respondesse por abuso sexual. Em agosto de 2015, Ukwuachu foi condenado a passar dez anos sob supervisão policial.

Outros dois jogadores, Tre’Von Armstead e Myke Chatman, foram citados em um caso de abuso sexual em 2013. E a investigação da faculdade só começou em 2015, quando a vítima procurou diretores da universidade para conversar sobre o assunto. Pelo menos neste caso, os dois atletas foram expulsos da equipe (Armstead até da escola) por causa do acontecimento.

O que mais espanta no histórico de Baylor nos últimos anos em questão de violência doméstica e abuso sexual é o quanto realmente foi investigado pela universidade, que contratou uma empresa para avaliar o trabalho do departamento esportivo e da presidência. E o relatório não é nada bom para os Bears.

Segundo a Pepper Hamilton, a empresa contratada, vários membros da comissão técnica de Baylor conversaram com vítimas nos casos e não repassaram informações para o departamento responsável pela investigação interna. Além disso, eles tentaram atuar como mediadores sem qualquer tipo de treinamento, o que é um grande problema.

Para piorar, a PH afirma que a universidade demorou a se adequar ao Title IX, uma política baseada na Constituição Americana que visa trabalhar melhor na prevenção e na apuração de casos de abuso sexual. Parte disso passa pelo fato de que funcionários da faculdade tinham que dividir seu tempo entre sua função e trabalhos do Title IX. Até novembro de 2014, não existia um coordenador da área e todos que estavam no comando não tinham treinamento suficiente para lidar com os desafios enfrentados.

Por fim, além de mostrar que a instituição não se prepara de forma correta para atender as vítimas, a linha do tempo confirma algo que não deveria acontecer: o sucesso do programa passa por cima de qualquer coisa, incluindo a segurança e a liberdade de outras pessoas como as vítimas de todos os jogadores.

Art Briles, o técnico que mais deu sucesso ao programa, até foi demitido, mas demorou bastante após tanta blindagem. Além disso, vários outros técnicos que estão ligados ao tratamento errado dos casos permanecem com seus cargos.

O caso de Baylor deveria mostrar para outras universidades, instituições, equipes e ligas esportivas que é extremamente importante tratar abuso sexual e violência doméstica com muito cuidado, tentando prevenir o acontecimento e investigando corretamente os casos, mesmo quando estamos falando de estrelas.

Tomara que isso mude. Não só no esporte. Mas na sociedade como um todo.

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